Existe um mundo que a gente não vê, de gente pobre que assiste uma telenovela para acalmar a sua própria dor. Existe um mundo além do nosso, que de tão perverso, ele se torna cotidiano na vida de todos que tem de enfrentar sua dura realidade. Para os que vivem num lugar além do nosso, não lhes é reservado o dom do gozo ou o prazer de um fim de tarde, mas o gosto amargo da cerveja de baixa renda, as batidas incultas do baile e o gelo do descaso.
Esses abortos do Estado estam cada vez mais proximos dos nossos olhos, rodeando nossas vidas e nossas paisagens, mas os tratamos como acidentes invisiveis do nosso cotidiano enquanto entre os beijos calorosos nos despedimos mais uma vez. O som das sirenes e o aviso negligente de um acidente se anuncia num bonde desgovernado e para nós é só carnaval e carícias, pois somos imortais, quase feitos de aço inox que não vai enferrujar.
Mais uma luz se apaga no horizonte nebuloso dessa madrugada e eu começo a criar em sonhos de papelão um castelo de areia e fazer dele nosso abrigo, sem nos preocupar com os atentados na Dinamarca ou os mortos de fome em Calcutá, já que estamos desprotegidos com nossos remédios para depressão e a anarquia de um condominio cercado.
Enquanto os homens desprovidos de cultura e carater querem nosso carro e nossas jóias eu quero te roubar cada parcela do teu gozo mais gostoso, amamentar meu futuro nos bicos rosados de seus peitos fartos e naufragar na gruta inundada que existe após o vale de rala relva negra onde repousa um escorpião vermelho, louco para envenenar minha serpente rígida.
A procura de abrigo nos deixamos levar pela influencia de vaca profana com leites estragados e filosofia de bordel, ficando a deriva nesse lar de revolução conformista enquanto nos lares a nossa volta o problema está na fome que faz uma criança calejar a mão como engraxate na Rua Uruguai.
De fome se morre e se mata, num mundo distante do nosso e por isso que com tanto espanto e admiração vivemos a observar as fábulas que contam nos jornais sensacionalistas, que nos enchem a cabeça de monstros que não encostam no nosso mundo, já que somos protegidos pelas leis, que funcionam para todos os afortunados que não dependem do tal salário minimo, que tanto falam os que não moram na nossa pátria.
E como já dizia Caetano em sua mais famosa alienação: O haiti não é aqui! Ele fica a milhas e milhas de distancia de minha casa que se protege cada vez mais dentro da bolha de suor, paixão e futilidades múltiplas, que estou acostumado a viver...


